Finanças verdes: sustentabilidade no crédito em Portugal

Em Portugal, como em muitos países da Europa, o crédito está a ganhar uma nova camada de responsabilidade: a ambiental.

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  • O crédito está a ganhar uma nova camada de responsabilidade: a ambiental
  • Quando o crédito começa a olhar para o impacto
  • A nova responsabilidade dos intermediários
  • Sustentável também quer dizer adequado

O crédito está a ganhar uma nova camada de responsabilidade: a ambiental

A sustentabilidade entrou de forma silenciosa no setor financeiro, mas hoje é impossível ignorá-la. Já não se trata de cumprir metas ou parecer bem nos relatórios. Trata-se de uma nova forma de pensar o financiamento. Em Portugal, como em muitos países da Europa, o crédito está a ganhar uma nova camada de responsabilidade: a ambiental.

 

Durante muito tempo, o crédito serviu para viabilizar projetos com base apenas em critérios financeiros – rentabilidade, risco, prazo. Agora, entra um novo fator: o impacto. Que efeito terá este financiamento no ambiente? Vai contribuir para a redução das emissões? Promove uma utilização eficiente de recursos? Respeita os princípios de transição para uma economia mais limpa?

 

Estas perguntas, que há poucos anos seriam vistas como secundárias, estão hoje no centro da conversa. A pressão para tornar o financiamento mais verde vem de vários lados. Vem dos reguladores, que definem novas normas. Vem dos bancos, que ajustam as suas carteiras de risco e procuram alinhar-se com os compromissos ESG. Mas vem também dos próprios consumidores, cada vez mais atentos e exigentes.

Quando o crédito começa a olhar para o impacto

É neste contexto que ganham força as chamadas finanças verdes. O conceito é simples: financiar projetos que tragam benefícios ambientais claros. Pode ser a construção de um edifício com classe energética A+, a aquisição de um carro elétrico, ou a modernização de uma linha de produção para consumir menos energia. São operações de crédito como tantas outras, mas com um critério adicional de seleção: o impacto ambiental positivo.

 

É importante, no entanto, não confundir finanças verdes com ESG. Os critérios ESG abrangem três áreas: ambiental, social e de governação. Já as finanças verdes concentram-se exclusivamente no ambiente. Esta distinção pode parecer técnica, mas ajuda a perceber o enquadramento regulatório. A União Europeia tem trabalhado para criar regras claras sobre o que pode ou não ser considerado verde. A Taxonomia Europeia é um exemplo disso. Define critérios objetivos para que uma atividade económica possa ser classificada como sustentável. É uma ferramenta que dá transparência ao mercado e evita o chamado greenwashing, ou seja, a apresentação enganosa de produtos como sustentáveis quando, na prática, não o são.

 

Portugal tem dado passos firmes nesta área. Empresas nacionais, em especial do setor energético, já emitiram obrigações verdes no valor de vários milhares de milhões de euros. A EDP lidera, mas outras empresas começam a seguir o mesmo caminho. Este tipo de financiamento permite captar investidores que procuram alinhar os seus investimentos com valores ambientais e sociais. É uma tendência que está a crescer em toda a Europa, e Portugal acompanha.

 

Também os bancos começam a oferecer produtos de crédito com selo verde. São linhas específicas para projetos com impacto ambiental positivo. Em alguns casos, a taxa de juro é reduzida se o projeto cumprir determinados critérios de eficiência. Noutras situações, o prazo de financiamento pode ser mais alargado. O objetivo é simples: tornar o crédito mais atrativo para quem escolhe opções mais sustentáveis.

 

Para além da banca comercial, há também incentivos públicos. Programas como o IFRRU ou o Plano de Recuperação e Resiliência incluem medidas de apoio à reabilitação urbana sustentável, à melhoria da eficiência energética e à transição climática. Em alguns casos, existem benefícios fiscais associados, como majorações no valor financiado ou deduções em sede de IRS.

A nova responsabilidade dos intermediários

Neste panorama em transformação, os intermediários de crédito têm um papel especialmente relevante. São muitas vezes o primeiro ponto de contacto entre o cliente e o financiamento. São quem ouve o projeto, recolhe a documentação, elabora as simulações e apresenta as melhores soluções disponíveis no mercado. E é precisamente por isso que têm uma responsabilidade adicional: ajudar o cliente a tomar decisões informadas e, sempre que possível, mostrar que existem opções de crédito mais sustentáveis.

 

Isto não significa empurrar o cliente para um produto verde só porque parece bem. Significa, antes de mais, garantir que o cliente conhece essas opções. Que entende o que significam. Que percebe o impacto que têm não só nas condições do crédito, mas também no ambiente e na sociedade. Muitas vezes, o cliente nem sabe que existe um crédito habitação com bonificação se o imóvel tiver classe A ou A+. Ou que pode ter acesso a condições mais vantajosas se optar por um carro elétrico em vez de um a combustão. Cabe ao intermediário trazer esta informação para a conversa.

 

Claro que para o fazer, é preciso conhecimento. A formação dos profissionais é essencial. E aqui ainda há trabalho a fazer. Os produtos verdes não são ainda dominantes no mercado. Os critérios de avaliação variam de banco para banco. E nem sempre as campanhas são claras quanto às vantagens reais. Quem está no terreno precisa de ter acesso a informação fiável, atualizada e, acima de tudo, útil. Porque não basta saber que o produto existe. É preciso saber em que condições se aplica. Que documentos exige. Que limitações tem. E como se compara com as alternativas.

 

A boa notícia é que os intermediários que souberem navegar bem este novo contexto podem ganhar uma vantagem competitiva. Porque ser capaz de orientar o cliente para uma solução sustentável, quando esta é adequada ao seu perfil, é uma mais-valia. Mostra competência. Mostra atenção ao detalhe. Mostra que se está a prestar um serviço completo.

 

Mas também há desafios. Um deles é a falta de padronização. Nem sempre é claro o que é ou não considerado “verde”. Há bancos que têm critérios próprios. Há produtos que são promovidos como sustentáveis, mas que na prática, têm pouco impacto. E há situações em que a documentação necessária é tão complexa que o cliente acaba por desistir da opção mais ecológica. Este tipo de obstáculos só se ultrapassa com mais transparência, mais formação e, idealmente, mais uniformização na forma como o crédito verde é apresentado e comercializado.

 

Outro desafio é o tempo. A análise de projetos com componentes ambientais pode ser mais demorada. Os bancos têm de validar dados técnicos, certificados energéticos, planos de investimento. O intermediário tem de gerir as expectativas do cliente e, por vezes, explicar que nem tudo se resolve no imediato. Mas esta dificuldade é compensada por outro fator: a valorização do projeto. Um imóvel eficiente, uma empresa com melhor pegada ambiental, uma viatura elétrica com custos de utilização mais baixos – tudo isto representa valor. E esse valor começa a ser reconhecido também pelas instituições financeiras.

Sustentável também quer dizer adequado

No meio desta evolução, é importante não esquecer que a sustentabilidade não se resume ao ambiente. O crédito deve também ser sustentável do ponto de vista financeiro e social. Isto significa evitar o sobre-endividamento. Garantir que o cliente compreende o que está a contratar. Assegurar que a prestação se ajusta ao rendimento disponível. E respeitar o princípio da adequação entre produto e perfil.

 

O crédito sustentável é, no fundo, aquele que respeita o cliente e o contexto em que vive. E que, ao mesmo tempo, contribui para um futuro coletivo mais equilibrado. Os intermediários estão numa posição única para dar corpo a esta visão. Têm a confiança dos clientes. Têm o conhecimento do mercado. E têm, sobretudo, a capacidade de fazer a diferença na forma como o crédito é apresentado, explicado e concretizado.

 

No CrediDesk, estamos atentos a esta realidade. Acompanhamos de perto a evolução das finanças sustentáveis, porque sabemos que o papel do intermediário de crédito também está a mudar. Queremos estar onde a mudança acontece – não só a acompanhar, mas a facilitar esse caminho com ferramentas úteis e conhecimento prático. Mais do que uma tendência, a sustentabilidade é um novo padrão. E quem estiver preparado para o integrar no seu dia a dia profissional estará melhor posicionado para crescer com solidez e responsabilidade.

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