Crédito Bancário em Portugal: confiança vs pressões

Este artigo resume os principais resultados, identifica implicações para o setor e propõe uma leitura crítica sobre os desafios e oportunidades para a intermediação de crédito.

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  • Oferta: estabilidade nos critérios, mas com ajustes subtis nas condições
  • Procura: sinais de retoma, com destaque para o crédito à habitação
  • Dinâmica estrutural: entre o ciclo de taxas e os desafios da rendibilidade
  • Como interpretar estes dados na prática?
  • O papel dos intermediários de crédito nesta fase

Oferta: estabilidade nos critérios, mas com ajustes subtis nas condições

De forma geral, os critérios de concessão de crédito mantiveram-se estáveis, tanto no crédito a empresas como no crédito a particulares. No entanto, essa estabilidade não significa imobilismo. O inquérito aponta para ligeiras melhorias nas condições de financiamento, sobretudo nos empréstimos considerados de risco médio.

 

No crédito a empresas, registou-se uma redução nos spreads praticados, aplicada de forma transversal a empresas de todas as dimensões. No crédito à habitação, os bancos também reduziram ligeiramente o spread em contratos de risco médio e mostraram menor rigidez no critério loan-to-value, o que poderá facilitar o acesso ao crédito por parte de clientes com menor capital inicial.

 

Este ajustamento parece estar a ser motivado, em parte, pela concorrência entre instituições, que continua a influenciar as condições comerciais oferecidas no segmento da habitação.

 

Mesmo com estas alterações, a proporção de pedidos de crédito rejeitados manteve-se estável no caso das empresas e aumentou ligeiramente no caso dos particulares, sinalizando que, embora os bancos tenham flexibilizado algumas condições, continuam atentos ao risco de crédito individual.

 

As projeções para o segundo trimestre apontam para uma tendência ligeiramente mais favorável, com expectativas de afrouxamento nos critérios de concessão, tanto no crédito a empresas como a particulares. Ainda assim, a expressão “ligeiramente” é chave: os bancos não antecipam uma mudança radical de abordagem, apenas uma gradual adaptação ao novo ciclo de política monetária.

Procura: sinais de retoma, com destaque para o crédito à habitação

Do lado da procura, os dados mostram uma recuperação moderada, mas relevante, principalmente no segmento da habitação. A procura por crédito por parte das famílias aumentou, impulsionada por três fatores: o recuo gradual das taxas de juro, as condições fiscais e regulatórias no mercado da habitação e, em menor grau, o aumento da confiança dos consumidores.

 

Este último aspeto é particularmente relevante, porque indica que, apesar das pressões económicas e da incerteza internacional, os consumidores voltam a considerar a contratação de crédito como viável e necessária.

 

No crédito ao consumo e outros fins, a confiança dos consumidores também teve um impacto positivo, ainda que mais ténue. O comportamento neste segmento mantém-se mais cauteloso, o que é coerente com os dados divulgados recentemente sobre a contração no crédito ao consumo em fevereiro.

 

No caso das empresas, a procura por empréstimos também subiu, sobretudo entre as PME e nos créditos de longo prazo. O nível geral das taxas de juro foi o principal fator positivo identificado. Por outro lado, o aumento do recurso a autofinanciamento atenuou a procura, especialmente entre grandes empresas.

 

A expectativa para o segundo trimestre aponta para um aumento ligeiro da procura, em todos os segmentos, o que poderá reforçar a retoma progressiva da atividade no setor.

Dinâmica estrutural: entre o ciclo de taxas e os desafios da rendibilidade

As questões ad hoc do inquérito ajudam a perceber melhor os desafios de fundo que os bancos enfrentam neste contexto de transição.

 

Nas respostas sobre o impacto das decisões do BCE nas taxas de juro diretoras, os bancos indicam que a rendibilidade está a diminuir, sobretudo por via da redução da margem financeira. A descida das taxas ativas tem sido mais rápida do que a descida das taxas passivas, comprimindo a diferença entre o que os bancos ganham e o que pagam. Este "efeito preço" está a tornar-se mais penalizador do que compensador.

 

Para além disso, os bancos esperam ter de reforçar provisões e imparidades, o que também pressiona a margem operacional. Esta realidade já é visível no primeiro trimestre e deverá acentuar-se nos próximos meses.

 

Outra conclusão relevante prende-se com o acesso ao financiamento por grosso e por titularização, que deverá melhorar ligeiramente, segundo os bancos. No entanto, este movimento não deverá alterar significativamente o volume de crédito concedido, pelo menos no curto prazo.

 

A qualidade do crédito, avaliada com base nos rácios de crédito não produtivo, não parece estar ainda a gerar mudanças significativas nos critérios de concessão. Ainda assim, a percepção de risco dos bancos poderá tornar o ambiente ligeiramente mais restritivo no futuro, especialmente se o contexto económico não estabilizar.

Como interpretar estes dados na prática?

A leitura dos resultados aponta para um mercado em equilíbrio instável. Há sinais positivos: a procura está a subir, os bancos estão a suavizar algumas condições e os clientes mostram vontade de voltar ao mercado. Mas há também pressões silenciosas: a margem dos bancos está a ser comprimida, a necessidade de provisões aumenta e a capacidade de financiamento continua sensível à confiança.

 

Para quem trabalha na intermediação de crédito, isto traduz-se em três desafios principais:

  1. Ler o mercado com rigor. Nem euforia, nem pessimismo. A realidade está no meio. Saber distinguir pequenas variações conjunturais de tendências estruturais é essencial para aconselhar bem o cliente.
  2. Gerir expectativas com clareza. Os clientes vão ouvir falar de descidas nas taxas. Mas isso não significa crédito mais barato para todos. A forma como cada banco interpreta e traduz essas mudanças varia. É preciso comunicar com precisão, não com otimismo exagerado.
  3. Acompanhar o risco com responsabilidade. Os bancos estão atentos à qualidade do crédito. Os intermediários também devem estar. Propor soluções sustentáveis, ajustadas ao perfil de cada cliente, não é apenas um dever ético. É também uma proteção comercial.

O papel dos intermediários de crédito nesta fase

A intermediação de crédito em Portugal tem hoje um papel mais técnico e mais estratégico do que nunca. Já não basta conhecer as ofertas disponíveis. É preciso conhecer o momento. Ler o que os bancos dizem, perceber o que o mercado espera, e traduzir isso em decisões práticas para os clientes.

 

Este inquérito do Banco de Portugal confirma que o setor bancário está a ajustar-se a um novo equilíbrio. Mais concorrência, margens mais apertadas, e clientes mais exigentes. A diferença estará, como sempre, na qualidade do serviço prestado.

 

No CrediDesk, acompanhamos esta evolução com atenção. Acreditamos que a melhor forma de apoiar os intermediários é fornecer contexto, dados e ferramentas que ajudem a transformar informação em ação. Porque num mercado cada vez mais técnico, é o conhecimento que cria confiança.

 

Pode consultar a publicação na integra neste link: Documento Banco de Portugal

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