De forma geral, os critérios de concessão de crédito mantiveram-se estáveis, tanto no crédito a empresas como no crédito a particulares. No entanto, essa estabilidade não significa imobilismo. O inquérito aponta para ligeiras melhorias nas condições de financiamento, sobretudo nos empréstimos considerados de risco médio.
No crédito a empresas, registou-se uma redução nos spreads praticados, aplicada de forma transversal a empresas de todas as dimensões. No crédito à habitação, os bancos também reduziram ligeiramente o spread em contratos de risco médio e mostraram menor rigidez no critério loan-to-value, o que poderá facilitar o acesso ao crédito por parte de clientes com menor capital inicial.
Este ajustamento parece estar a ser motivado, em parte, pela concorrência entre instituições, que continua a influenciar as condições comerciais oferecidas no segmento da habitação.
Mesmo com estas alterações, a proporção de pedidos de crédito rejeitados manteve-se estável no caso das empresas e aumentou ligeiramente no caso dos particulares, sinalizando que, embora os bancos tenham flexibilizado algumas condições, continuam atentos ao risco de crédito individual.
As projeções para o segundo trimestre apontam para uma tendência ligeiramente mais favorável, com expectativas de afrouxamento nos critérios de concessão, tanto no crédito a empresas como a particulares. Ainda assim, a expressão “ligeiramente” é chave: os bancos não antecipam uma mudança radical de abordagem, apenas uma gradual adaptação ao novo ciclo de política monetária.
Do lado da procura, os dados mostram uma recuperação moderada, mas relevante, principalmente no segmento da habitação. A procura por crédito por parte das famílias aumentou, impulsionada por três fatores: o recuo gradual das taxas de juro, as condições fiscais e regulatórias no mercado da habitação e, em menor grau, o aumento da confiança dos consumidores.
Este último aspeto é particularmente relevante, porque indica que, apesar das pressões económicas e da incerteza internacional, os consumidores voltam a considerar a contratação de crédito como viável e necessária.
No crédito ao consumo e outros fins, a confiança dos consumidores também teve um impacto positivo, ainda que mais ténue. O comportamento neste segmento mantém-se mais cauteloso, o que é coerente com os dados divulgados recentemente sobre a contração no crédito ao consumo em fevereiro.
No caso das empresas, a procura por empréstimos também subiu, sobretudo entre as PME e nos créditos de longo prazo. O nível geral das taxas de juro foi o principal fator positivo identificado. Por outro lado, o aumento do recurso a autofinanciamento atenuou a procura, especialmente entre grandes empresas.
A expectativa para o segundo trimestre aponta para um aumento ligeiro da procura, em todos os segmentos, o que poderá reforçar a retoma progressiva da atividade no setor.
As questões ad hoc do inquérito ajudam a perceber melhor os desafios de fundo que os bancos enfrentam neste contexto de transição.
Nas respostas sobre o impacto das decisões do BCE nas taxas de juro diretoras, os bancos indicam que a rendibilidade está a diminuir, sobretudo por via da redução da margem financeira. A descida das taxas ativas tem sido mais rápida do que a descida das taxas passivas, comprimindo a diferença entre o que os bancos ganham e o que pagam. Este "efeito preço" está a tornar-se mais penalizador do que compensador.
Para além disso, os bancos esperam ter de reforçar provisões e imparidades, o que também pressiona a margem operacional. Esta realidade já é visível no primeiro trimestre e deverá acentuar-se nos próximos meses.
Outra conclusão relevante prende-se com o acesso ao financiamento por grosso e por titularização, que deverá melhorar ligeiramente, segundo os bancos. No entanto, este movimento não deverá alterar significativamente o volume de crédito concedido, pelo menos no curto prazo.
A qualidade do crédito, avaliada com base nos rácios de crédito não produtivo, não parece estar ainda a gerar mudanças significativas nos critérios de concessão. Ainda assim, a percepção de risco dos bancos poderá tornar o ambiente ligeiramente mais restritivo no futuro, especialmente se o contexto económico não estabilizar.
A leitura dos resultados aponta para um mercado em equilíbrio instável. Há sinais positivos: a procura está a subir, os bancos estão a suavizar algumas condições e os clientes mostram vontade de voltar ao mercado. Mas há também pressões silenciosas: a margem dos bancos está a ser comprimida, a necessidade de provisões aumenta e a capacidade de financiamento continua sensível à confiança.
Para quem trabalha na intermediação de crédito, isto traduz-se em três desafios principais:
A intermediação de crédito em Portugal tem hoje um papel mais técnico e mais estratégico do que nunca. Já não basta conhecer as ofertas disponíveis. É preciso conhecer o momento. Ler o que os bancos dizem, perceber o que o mercado espera, e traduzir isso em decisões práticas para os clientes.
Este inquérito do Banco de Portugal confirma que o setor bancário está a ajustar-se a um novo equilíbrio. Mais concorrência, margens mais apertadas, e clientes mais exigentes. A diferença estará, como sempre, na qualidade do serviço prestado.
No CrediDesk, acompanhamos esta evolução com atenção. Acreditamos que a melhor forma de apoiar os intermediários é fornecer contexto, dados e ferramentas que ajudem a transformar informação em ação. Porque num mercado cada vez mais técnico, é o conhecimento que cria confiança.
Pode consultar a publicação na integra neste link: Documento Banco de Portugal