O Inquérito aos Bancos sobre o Mercado de Crédito publicado pelo Banco de Portugal em janeiro de 2026 oferece uma leitura detalhada sobre a evolução recente da oferta e da procura de crédito em Portugal, bem como sobre as expectativas das instituições financeiras para o início do novo ano. O inquérito, alinhado com o Bank Lending Survey do Eurosistema, reflete as respostas dos principais bancos nacionais e incide sobre o quarto trimestre de 2025, incluindo ainda projeções para o primeiro trimestre de 2026.
Os resultados apontam para um cenário marcado pela estabilidade dos critérios de concessão de crédito, por ajustes marginais nos termos e condições aplicados às empresas e por um aumento da procura de crédito, sobretudo no segmento empresarial. Trata-se de um enquadramento que não traduz uma mudança estrutural no funcionamento do mercado, mas antes um conjunto de movimentos graduais que importa compreender no seu detalhe.
Um dos elementos centrais do inquérito é a evolução dos critérios de concessão de crédito. De acordo com as respostas dos bancos, no quarto trimestre de 2025 não se registaram alterações relevantes nos critérios aplicados aos empréstimos concedidos a empresas, quer se trate de pequenas e médias empresas, quer de grandes empresas, e independentemente do prazo das operações. O índice de difusão associado a estes critérios manteve-se em zero, sinalizando uma situação de continuidade face ao trimestre anterior.
O mesmo padrão é observado no crédito a particulares. Tanto no crédito à habitação como no crédito ao consumo e outros empréstimos, os bancos indicam que os critérios de concessão permaneceram praticamente inalterados. Não se identificam movimentos de maior restritividade nem sinais de flexibilização generalizada, o que sugere uma aplicação consistente das políticas de risco já em vigor.
No segmento da habitação, os quadros detalhados mostram que alguns fatores específicos, como as perspetivas do mercado imobiliário e a evolução esperada dos preços da habitação, contribuíram ligeiramente para tornar os critérios mais restritivos. No entanto, este contributo não teve impacto agregado, mantendo-se o resultado global num nível de estabilidade.
Embora os critérios de concessão não tenham sofrido alterações, os termos e condições aplicados aos empréstimos mostram alguns ajustamentos, sobretudo no crédito às empresas. No quarto trimestre de 2025, os bancos reportaram uma ligeira diminuição da taxa de juro praticada e do spread aplicado nos empréstimos de risco médio concedidos a empresas, tanto no segmento das PME como no das grandes empresas.
No caso das PME, este movimento foi acompanhado por uma redução marginal da restritividade associada ao montante dos empréstimos e à maturidade, indicando uma maior flexibilidade na estruturação das operações, ainda que dentro dos mesmos enquadramentos de risco. Estes ajustamentos não se estenderam aos empréstimos de maior risco, onde os spreads permaneceram inalterados.
A análise dos fatores subjacentes a estas alterações mostra que a concorrência entre instituições bancárias teve um papel relevante na redução da restritividade dos termos e condições aplicados às empresas. Contribuíram também, de forma ligeira, as condições de acesso ao financiamento de mercado, a perceção da situação e perspetivas de setores de atividade específicos e os riscos associados às garantias exigidas, sobretudo no que respeita aos spreads dos empréstimos de risco médio.
No crédito a particulares, tanto na habitação como no consumo, os termos e condições mantiveram-se praticamente inalterados. Não se observaram alterações nas taxas de juro, nos spreads, nas garantias exigidas, nos rácios entre o valor do empréstimo e o valor da garantia, nem nas maturidades. Os fatores analisados não revelam contributos significativos no sentido de maior ou menor restritividade.
Outro aspeto analisado no inquérito é a evolução da proporção de pedidos de empréstimo rejeitados. Os resultados indicam que, no quarto trimestre de 2025, a proporção de pedidos rejeitados permaneceu praticamente inalterada, tanto no crédito a empresas como no crédito a particulares.
Este padrão é consistente entre PME e grandes empresas e também entre crédito habitação e crédito ao consumo. O índice de difusão associado a esta variável manteve-se em zero, sugerindo que os bancos não alteraram a sua postura relativamente à aceitação ou rejeição de pedidos de crédito, em termos agregados.
A principal alteração identificada no inquérito surge do lado da procura de crédito. No segmento empresarial, os bancos reportaram um aumento da procura de empréstimos, com maior incidência nas PME e nos empréstimos de curto prazo. Também se registou um aumento, embora mais moderado, na procura de empréstimos de longo prazo.
Os fatores explicativos deste crescimento são claramente identificados nos quadros do inquérito. As necessidades de financiamento de existências e de fundo de maneio tiveram um contributo positivo relevante para o aumento da procura, especialmente no caso das PME. Em menor grau, contribuíram também as necessidades de financiamento do investimento e o nível geral das taxas de juro.
Em sentido contrário, o recurso à geração interna de fundos funcionou como fator de redução da procura de crédito, refletindo a utilização de poupanças ou resultados retidos como alternativa ao financiamento bancário. No segmento das grandes empresas, a emissão e reembolso de títulos de dívida também contribuiu para atenuar a procura de empréstimos bancários.
No crédito a particulares, os bancos indicam um ligeiro aumento da procura, tanto no crédito à habitação como no crédito ao consumo e outros empréstimos. Este aumento é menos expressivo do que o observado nas empresas, mas representa uma mudança face a períodos anteriores de maior contenção.
No caso da habitação, os fatores que contribuíram para a evolução da procura incluem o regime regulamentar e fiscal do mercado da habitação, bem como o nível geral das taxas de juro, embora sem impacto agregado expressivo. No crédito ao consumo, destaca-se o contributo do financiamento de despesas de consumo através de empréstimos garantidos por ativos imobiliários, ainda que de forma limitada.
As expectativas reportadas pelos bancos para o primeiro trimestre de 2026 apontam para uma continuação das tendências observadas no final de 2025. No crédito a empresas, os bancos antecipam um novo aumento da procura, sobretudo por parte das PME e em empréstimos de curto prazo. Os critérios de concessão deverão manter-se globalmente estáveis, com alguns sinais de ligeira menor restritividade em segmentos específicos, mas sem impacto agregado.
No crédito a particulares, as expectativas apontam para a manutenção da estabilidade, tanto nos critérios de concessão como na procura. Não são antecipadas alterações relevantes no crédito à habitação nem no crédito ao consumo.
O inquérito inclui ainda um conjunto de questões ad hoc que ajudam a contextualizar o ambiente financeiro. No que respeita ao financiamento a retalho e por grosso, os bancos reportaram uma melhoria no acesso à emissão de títulos de dívida de médio e longo prazo nos últimos meses, não antecipando alterações significativas para o futuro próximo.
Relativamente ao impacto dos novos requisitos regulamentares e prudenciais, os bancos indicaram um ligeiro aumento dos ativos líquidos e dos fundos próprios, sobretudo através de lucros não distribuídos. As condições de financiamento tornaram-se ligeiramente mais restritivas, mas sem impacto direto nos critérios de concessão de crédito a empresas ou particulares.
No que diz respeito aos rácios de créditos não produtivos e a outros indicadores de qualidade do crédito, os resultados mostram que estes fatores não tiveram impacto agregado relevante na política de concessão. Pelo contrário, a posição de liquidez e o acesso ao financiamento de mercado contribuíram, de forma marginal, para reduzir a restritividade dos critérios.
Por fim, a análise da exposição dos bancos portugueses a alterações nas políticas comerciais internacionais indica que essa exposição foi considerada pouco importante. O impacto das tensões comerciais refletiu-se sobretudo numa menor tolerância ao risco, com um ligeiro aumento da restritividade dos critérios de concessão de crédito a empresas, mas sem efeitos significativos na procura.
O Inquérito aos Bancos sobre o Mercado de Crédito de janeiro de 2026 desenha um retrato de continuidade no mercado de crédito em Portugal. A oferta mantém-se estável, os critérios de concessão não se alteram de forma significativa e os ajustamentos observados nos termos e condições são marginais e concentrados no segmento empresarial. A principal dinâmica está do lado da procura, com um aumento claro do interesse das empresas pelo financiamento bancário, em particular para responder a necessidades de curto prazo.
Este enquadramento sugere um mercado funcional, sem sinais de rutura, mas com exigências constantes em termos de análise, enquadramento de risco e qualidade dos processos apresentados às instituições financeiras.